segunda-feira, 31 de outubro de 2016

__olhares


Tenho escrito estórias e assim completando minha história, remanejando meus talentos, reconhecendo meus enganos. Sendo eu.
Não por acaso - até por nele não creio - tenho vivido os dias de forma a não contar horas, mas a contar atos. 
Assim, sigo. 
Este seguir nada mais é do que a obrigação - o que me cabe neste mundo escola.
Mas a palavra tem sido, de qualquer forma, a minha mais cara companheira.
Por ela e com ela, perco e ganho noites e dias.
Tudo faz sentido quando ela se apresenta e me toma de assalto, 
abraçando minha alma e meu corpo de modo a desenhar-se diante de meus olhos.
Por isso, ouso dizer que não me importo com muito mais do que isso.
Já fiz muito e hoje, se faço pouco para o mundo, estou certa de fazer 
mais para esta viagem a que me lanço apaziguada.
Se de mais não sei, não me apresso.
Sou os olhos a buscarem a leitura perfeita.
E as mãos a desenharem uma caligrafia possível.
No mais, caminho. E enquanto caminho, sou.

...

[imagem: marie]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

_____velho mundo azul



[imagem: jdm.com]




Raios e relâmpagos.A tempestade eu não sei se está 
se aproximando ou indo embora, 
mas cai água lá para os lados da 
serra do mar. Uns anos atrás eu 
poderia dizer com facilidade se 
aquela chuva ia ou vinha. Hoje, eu 
já não sei.A gente desaprende certas 
coisas - porque o mundo também 
desaprende a ser como é, 
machucado, ferido de guerra 
silenciosa travada ao se 
defender. De nós.Os humanos desumanos em 
questão.
Uma ferida exposta parece doer 
mais, muito mais que a minha dor.E eu choro pela dor deste mundo 
velho e azul.Sem a desculpa de ter crateras 
como a lua para se esconder ou 
uma cama para se deitar em um 
mar da tranquilidade, este mundo 
velho caduca entre o 
derretimento das calotas de 
seus polos e um casal de 
espanhóis que lhe fazem o que 
bem entendem. El Niño e La Niña 
se divertem, já que o planeta 
claudica com sua artrose 
crônica e sem vontade até de 
falar. Por isso só faz uivar 
ventos e tosse trovões. Mais os raios ainda são o sinal de 
sua incansável lucidez.
Mundo velho azul.Saudade de um amor partilhado.
...


A.Gil.




domingo, 27 de dezembro de 2015

_____escrevo, escrevo, escrevo

[imagem: via ruffledblog.com]



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Provavelmente eu ainda esteja escrevendo quando o sol aparecer sobre o horizonte e soprar luz sobre nosso mar verde tão escuro que é quase sempre cinzento. Porque a noite me ameaça com desejos invencíveis de transpor meus  limites que cantam madrugadas e acordam ainda sonhadores. E eu escrevo como se sangrasse uma eterna menarca.
É quase certo que a lua me encontrará escrevendo quando ela surgir, majestosa, depois de dar um belo chute no sol para avisar que à noite é ela quem manda porque as estrelas lhe emprestam o brilho e um par de brincos novos, todas as noites. E eu escrevo como se bebesse o leite de minha mãe todas as manhãs antes de me dar conta de que ela passou a obrigação de me alimentar à poesia.
Também estarei escrevendo quando o relógio de sol marcar a hora metade e o calor estiver tão abrasador que eu desejarei o deserto de palavras, em vão. Elas serão tempestade de areia a fustigar meus olhos e secarem meus lábios. E eu escrevo como se me banhasse à tarde toda no oásis de águas claras da vida irmã.
Tenho quase certeza de que estarei escrevendo quando algum médico me garantir pouco tempo à mercê desta atmosfera e eu, entre um espanto e um suspiro aliviado, possa me garantir menos enfadonha do que as letras que rabiscam receitas e prognósticos e diagnósticos. E eu escrevo como quem se cura de uma doença a cada dia.
Creio que partirei escrevendo, para desespero dos amigos que vão preferir chorar antes de me ler. Provavelmente acenarei letras com um lenço branco e uma mensagem coerente em meio a mistérios incongruentes.
E meus olhos fechados estarão lendo tudo o que escrevi e escreverei ainda, como se assistisse a morosos veleiros transpondo mares azuis.

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A.Gil.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

_____de idas e vindas


Caminho é feito para se ir e se voltar.
Caminho...ah! é feito para caminhar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

_____janelas[e o tempo]

As janelas têm lembranças guardadas no que veem ao longo de anos de espreita e luz.
Registre-se o que está gravado pelas estações que passam com a velocidade de uma máquina do tempo. A voracidade egoísta do rodar da vida.
Alguém a passar. Alguém a chamar.
Um sob uma árvore, a pensar.
Mil vultos aqui e ali.
Repentes doidos como cliques de câmeras a fotografar o derramar-se fatídico do senhor de brancas barbas e agitadas mãos, porém voz calma em graves tons.
Janelas.
Ali sangram memórias.
Ali singram mares do tempo.


A.Gil

sábado, 16 de novembro de 2013

____das metáforas dos dias

 
 
 
[imagem: Anna Alexis]


 Algumas palavras que lhe arranhavam as gavetas da alma, já não disse. Não faziam mais qualquer sentido. Sua boca parecia costurada com linha colorida como a boca das bonecas de pano e seu silêncio tinha um gosto de pão amanhecido e cheiro de café esfriado na caneca.
Entretanto, isso tudo era preferível a usar as palavras guardadas desde um tempo tão remoto que até a memória dele tinha tons sépia. Não que tivesse alternativa, já que os ouvidos estavam mais moucos do que nunca e as mentes tão rasas que repetiam atitudes burras travestidas de razão. Não que ela própria fosse genial.
Mas bem que sabia sair de labirintos maiores,
quando os reconhecia construídos por mãos de papelão e transístores.
Algumas palavras jamais diria.
E o bolor que elas criariam talvez fosse útil nos porões onde, deitados,
os vinhos esperam bocas e festins.

...



 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

____estatística/vida

imagem: via minhocanacabeca.com.br


Pelas telas das tevês escorrem lágrimas de sangue. 
Nos jornais, a tinta é vermelha e os números - inimagináveis- transformam crimes brutais e pessoas em mera estatística.
E eu - um milhão de 'eus' - passo - passamos nós - . Os que preferem ser essa individualidade para a posse, o consumo, mas se distancia - sem rosto, sem alma - dos que, como ele, compõem números...números.
O pensar matemático nos trouxe o imediatismo, o resultado exato e nos transformou - a nós e nossos pensamentos - em equações. E eis que a nossa capacidade de simplesmente nos colocarmos no lugar do outro - próximo ou distante - foi reduzida a mínimos comentários saídos da lingua de fogo da LÓGICA.  
Assim, rotula-se antes mesmo de pesar uma ciscunstãncia, uma causa, um sentir. 
O resultado - reação precisa ser rápido, tão célere quanto a fúria do pensamento que se habitua aos poucos a não admitir falhas - como se a vida fosse exata. 
A partir disso, da equilibrada e retilínea operação matemática tão proeminente hoje, qualquer fraqueza torna-se um defeito, uma falha imperdoável, pois é como se o mundo não tivesse espaço para nada que seja menos que perfeito dentro do padrões construídos matematicamente, minuciosamente.
O que não estiver "dentro" desse sistema de coisas é equacionado como um item marginal. É fraco, está abaixo das expectativas criadas com milimétricas  projeções.
No mundo dos "super" não cabe quem se importa, quem se relaciona com abertura de alma, tolerância e boa vontade.Ora, se 1.000 foram mortos em um atentato, por exemplo [ e portanto em consequência de muita intolerância sob qualquer aspecto], são 1.000 PESSOAS e não um número isolado, um dado na estatística comum.  
São mil vidas, mil amigos de outros, mil filhos de alguém.
E nós, muitos de nós, passamos. 
Retos, distraídos no minuto seguinte pelo próprio e importante mundo que nos torna aparentemente "normais".
Passamos. Corremos para garantirmos a nossa posição no "ranking"  dos dados estatísticos  em que se encaixam aqueles que, POR ENQUANTO enquanto, estão livres do mal.
 ...

* Em tempo:

Quando nossa sensibilidade é roubada pela LÓGICA fabricada de antemão por um sistema que nos pretende "ensinar"a viver, abrimos espaço para o domínio, a tirania, o controle desmedido do nosso destino. [Nosso e dos que, neste mundo, são considerados "diferentes"].