quinta-feira, 3 de maio de 2018

[bobices de Agla] :: a saia



Em 1975, poucas coisas me incomodavam mais do que aquela saia plissada que eu devia usar quase totalmente abaixo do joelho. Além disso, o tecido era um tanto firme demais e a saia,apesar de plissada, não tinha movimento, era dura,aquilo me chateava. 
Se bem que meus joelhos eram ossudos, saltados, esquisitos. Eu os queria arredondados, bonitinhos, bem feitos, enfeitando pernas mais grossas. Que nada! Era daquele jeito mesmo, fazer o quê?
Meus cabelos pareciam refletir o que se passavam dentro de mim, eles tinham uma rebeldia intrínseca. Se eu plantasse um ou dois fios num vaso ou num xaxim, o nome seria: 'comigo-ninguém-pode'.
Verdade. Eram o ó.
Mas eu também não cuidava muito deles não. Não havia essas coisas de cuidar demais, produtos e tal. A gente também não tinha dinheiro para tanto, mesmo se houvesse. Soluções paliativas eram a touca [alguém se lembra disso? para alisar, os bobs gigantes que a gente chamava de manilhas da Sanepar [é a empresa de saneamento aqui do Paraná], e as muitas escovadas antes de dormir.
Mesmo assim, continuavam rebeldes. Mas bem que eu gostava deles daquele jeito. Eram a minha cara e, nos anos 80, definitivamente nos acertamos bem. Pude deixá-los enormes, alvoroçados, livres. E aprendi não ligo.
Os dentes. Ah! Os dentes! Dentuça pra valer. E não havia muito como mudar isso - os cinco anos de uso da chupeta [confesso!] haviam causado um estrago perene. Aparelho? Nem pensar!
Gente! Vocês têm ideia do que meu pai pensava sobre essas coisas 'afrescalhadas' e caras? Pois.
O que me salvava talvez fossem os olhos. Tomavam conta do rosto.Chamavam a atenção e, talvez, um ou outro não reparasse mais nos dentes e nas gengivas aparecendo quando eu ria. E eu ria muito! [como sempre!]
E entre coisas e coisinhas, o que mais me incomodava, afinal?
Não sei.
Quem sabe a minha intensidade em relação a meus sentimentos; quem sabe, a liberdade que me era inerente e que chocava e me fazia sentir por vezes uma extraterrestre. 
Não. Não era isso.
Creio que o que mais me incomodava era ser água funda a ser bebida sem ser saboreada.
E isso... isso demorou muito tempo para eu entender por quê.
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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

__olhares


Tenho escrito estórias e assim completando minha história, remanejando meus talentos, reconhecendo meus enganos. Sendo eu.
Não por acaso - até por nele não creio - tenho vivido os dias de forma a não contar horas, mas a contar atos. 
Assim, sigo. 
Este seguir nada mais é do que a obrigação - o que me cabe neste mundo escola.
Mas a palavra tem sido, de qualquer forma, a minha mais cara companheira.
Por ela e com ela, perco e ganho noites e dias.
Tudo faz sentido quando ela se apresenta e me toma de assalto, 
abraçando minha alma e meu corpo de modo a desenhar-se diante de meus olhos.
Por isso, ouso dizer que não me importo com muito mais do que isso.
Já fiz muito e hoje, se faço pouco para o mundo, estou certa de fazer 
mais para esta viagem a que me lanço apaziguada.
Se de mais não sei, não me apresso.
Sou os olhos a buscarem a leitura perfeita.
E as mãos a desenharem uma caligrafia possível.
No mais, caminho. E enquanto caminho, sou.

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[imagem: marie]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

_____velho mundo azul



[imagem: jdm.com]




Raios e relâmpagos.A tempestade eu não sei se está 
se aproximando ou indo embora, 
mas cai água lá para os lados da 
serra do mar. Uns anos atrás eu 
poderia dizer com facilidade se 
aquela chuva ia ou vinha. Hoje, eu 
já não sei.A gente desaprende certas 
coisas - porque o mundo também 
desaprende a ser como é, 
machucado, ferido de guerra 
silenciosa travada ao se 
defender. De nós.Os humanos desumanos em 
questão.
Uma ferida exposta parece doer 
mais, muito mais que a minha dor.E eu choro pela dor deste mundo 
velho e azul.Sem a desculpa de ter crateras 
como a lua para se esconder ou 
uma cama para se deitar em um 
mar da tranquilidade, este mundo 
velho caduca entre o 
derretimento das calotas de 
seus polos e um casal de 
espanhóis que lhe fazem o que 
bem entendem. El Niño e La Niña 
se divertem, já que o planeta 
claudica com sua artrose 
crônica e sem vontade até de 
falar. Por isso só faz uivar 
ventos e tosse trovões. Mais os raios ainda são o sinal de 
sua incansável lucidez.
Mundo velho azul.Saudade de um amor partilhado.
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A.Gil.




domingo, 27 de dezembro de 2015

_____escrevo, escrevo, escrevo

[imagem: via ruffledblog.com]



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Provavelmente eu ainda esteja escrevendo quando o sol aparecer sobre o horizonte e soprar luz sobre nosso mar verde tão escuro que é quase sempre cinzento. Porque a noite me ameaça com desejos invencíveis de transpor meus  limites que cantam madrugadas e acordam ainda sonhadores. E eu escrevo como se sangrasse uma eterna menarca.
É quase certo que a lua me encontrará escrevendo quando ela surgir, majestosa, depois de dar um belo chute no sol para avisar que à noite é ela quem manda porque as estrelas lhe emprestam o brilho e um par de brincos novos, todas as noites. E eu escrevo como se bebesse o leite de minha mãe todas as manhãs antes de me dar conta de que ela passou a obrigação de me alimentar à poesia.
Também estarei escrevendo quando o relógio de sol marcar a hora metade e o calor estiver tão abrasador que eu desejarei o deserto de palavras, em vão. Elas serão tempestade de areia a fustigar meus olhos e secarem meus lábios. E eu escrevo como se me banhasse à tarde toda no oásis de águas claras da vida irmã.
Tenho quase certeza de que estarei escrevendo quando algum médico me garantir pouco tempo à mercê desta atmosfera e eu, entre um espanto e um suspiro aliviado, possa me garantir menos enfadonha do que as letras que rabiscam receitas e prognósticos e diagnósticos. E eu escrevo como quem se cura de uma doença a cada dia.
Creio que partirei escrevendo, para desespero dos amigos que vão preferir chorar antes de me ler. Provavelmente acenarei letras com um lenço branco e uma mensagem coerente em meio a mistérios incongruentes.
E meus olhos fechados estarão lendo tudo o que escrevi e escreverei ainda, como se assistisse a morosos veleiros transpondo mares azuis.

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A.Gil.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

_____de idas e vindas


Caminho é feito para se ir e se voltar.
Caminho...ah! é feito para caminhar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

_____janelas[e o tempo]

As janelas têm lembranças guardadas no que veem ao longo de anos de espreita e luz.
Registre-se o que está gravado pelas estações que passam com a velocidade de uma máquina do tempo. A voracidade egoísta do rodar da vida.
Alguém a passar. Alguém a chamar.
Um sob uma árvore, a pensar.
Mil vultos aqui e ali.
Repentes doidos como cliques de câmeras a fotografar o derramar-se fatídico do senhor de brancas barbas e agitadas mãos, porém voz calma em graves tons.
Janelas.
Ali sangram memórias.
Ali singram mares do tempo.


A.Gil

sábado, 16 de novembro de 2013

____das metáforas dos dias

 
 
 
[imagem: Anna Alexis]


 Algumas palavras que lhe arranhavam as gavetas da alma, já não disse. Não faziam mais qualquer sentido. Sua boca parecia costurada com linha colorida como a boca das bonecas de pano e seu silêncio tinha um gosto de pão amanhecido e cheiro de café esfriado na caneca.
Entretanto, isso tudo era preferível a usar as palavras guardadas desde um tempo tão remoto que até a memória dele tinha tons sépia. Não que tivesse alternativa, já que os ouvidos estavam mais moucos do que nunca e as mentes tão rasas que repetiam atitudes burras travestidas de razão. Não que ela própria fosse genial.
Mas bem que sabia sair de labirintos maiores,
quando os reconhecia construídos por mãos de papelão e transístores.
Algumas palavras jamais diria.
E o bolor que elas criariam talvez fosse útil nos porões onde, deitados,
os vinhos esperam bocas e festins.

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