sábado, 11 de setembro de 2010

_____outra vida


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E lá estava eu, de novo, parada em frente ao grande relógio da estação de minhas letras. Marquei passagem para algumas horas antes do pôr-do-sol, porque sentia que precisava estar fora da cidade maldita de meus medos. Escolhi o destino usando o dedo e um mapa. Acertei em cheio  em uma ilha da polinésia da poesia, mas como não poderia chegar lá de trem, mergulhei na atitude sensata de embarcar para Minas e as vontades do Dirceu de Marília.
Ah...o tempo...angustiado, fazia graça de si mesmo e eu brincava de roda em torno dele.
Os ponteiros estavam inertes e eu cantava as canções que algum alaúde [mais antigo que a própria poesia de Dirceu] gritara séculos atrás.
Não sei. Sempre que eu queria voltar à estação de minhas letras havia uma razão maior para tudo. Principalmente para me ver florida, vestida em fitas e rendas.
Quando abria os olhos, o grande relógio engolira com avidez a minha poesia.
E eu sorria. Só.
...

_________imagem: s.tempo

terça-feira, 7 de setembro de 2010

____do que todos precisamos

____o que estou pensando

No que existe, para que existe.
Na finalidade de coisas banais.
Na falta de consolo de pessoas -milhões delas-
que se locomovem nesses feriados enormes que a gente tem
por aqui [coisa bem nossa]
____

Sei lá.
"tem gosto pra tudo",mas, quanto a mim,
fico aqui com um tanto, um bom tanto, de sossego,
com uma boa caminhada pela cidade
sem tanto barulho,
um papo ocasional,
bons livros e filmes
e...ah!
a música...
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Viajar, em feriados prolongados, para mim,
não dá.
As pessoas ficam loucas.
As pessoas ficam ainda mais estranhas.
E eu...eu já tenho estranheza suficiente em mim
e no 'entorno' [sic]
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Mas...'pra tudo tem gosto'!
Quanto a mim, fico por aqui.
E escrevo algumas cartas
'desbocadas'
para os nossos candidatos
tão....tão...
incansáveis em banalizar
o que não nos dá descanso:
gente! estamos no século 21
e....ah! pelo amor dos nossos
xixizinhos!
não temos saneamento básico suficiente!!!!!
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tá bom...
vamos festejar...

sábado, 4 de setembro de 2010



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[trecho de 'lembranças da menina poesia', uma tentativa minha]
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Ele não tocava mais clarinete. De olhos arregalados e rosto encovado, tudo o que conseguia ver eram as notas musicais perdidas pelo ar, sem que pudesse recuperá-las. Pestanejavam em volta dele feito borboletas escurecidas, enquanto ele tentava abocanhá-las ou agarrá-las com as mãos. Em vão. A música não voltaria. Tudo o que conseguiria seria um zunido persistente em seus ouvidos, logo depois de outra - a última - dose de heroína. Enquanto isso,as notas musicai borboleteariam rumo à esquina oposta.
Quando Anna viu novamente o clarinete, ele jazia ao lado do músico que morrera 'ninguém', esquálido e de olhos arregalados, deitado sobre a grossa camada de poeira e parecendo assistir a alguma sinfonia, no teto manchado pela infiltração da chuva.
Ela pensou em guardar para si o instrumento; afinal, quem daria por falta dele?
Mas Anna apenas se deixou ficar ali,correndo os olhos do corpo do homem para o clarinete. Ambos gastos, apenas um deles ainda com vida.
Ficou ali uma eternidade [em seu íntimo] até ouvir o som de sirene que se aproximava.
A mulher, a velha descabelada e mal-humorada, a senhoria do homem do clarinete chamara a polícia, o corpo de bombeiros e, com eles, os repórteres que faziam plantão em frente das repartições policiais, sempre a espera de uma notícia-desgraça.
Anna desejou aquele instrumento como desejaria poucas coisas na vida, apesar disso, deixou-o ali, ao lado do dono, guardando em si a lembrança do som que o homem, um dia, soubera tirar dele.
Ao sair, pôde ouvir a velha resmungar que o clarinete poderia pagar um tanto do aluguel atrasado...pelo menos um tanto...
Anna sorriu, tristemente. Foi para casa, sentindo-se cem anos mais velha e mil vezes mais só.
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_gota eu sou