segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

_______tempos de paz [ o monólogo ]

Transcrevi esse monólogo, que não conhecia e pelo qual me apaixonei ao ver Dan Stulbach interpretar Clausewitz, um polonês que vivenciou a Segunda Guerra Mundial, no filme 'Tempos de Paz' - que vale, pelo trabalho maravilhoso desse ator, de Toni Ramos e da presença cênica forte de Daniel Filho.

Vale a pena ler. Vale a pena ver Dan recitando-o. É um momento mágico!

___________________________________

"Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,já que me tratais assim,que delito cometi contra vós outros, nascendo; que, se nasci, já entendo qual delito hei cometido:bastante causa há servido vossa justiça e rigor,pois que o delito maior do homem é ter nascido.
E só quisera saber,para apurar males meus deixando de parte, ó céus,o delito de nascer,em que vos pude ofender por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,que privilégios tiveram como eu não gozei jamais?
Nasce a ave, e com as graças que lhe dão beleza suma,apenas é flor de pluma,ou ramalhete com asas,quando as etéreas plagas corta com velocidade,negando-se à piedade do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,tenho menos liberdade?
Nasce a fera, e com a pele que desenham manchas belas,apenas signo é de estrelas graças ao douto pincel,quando atrevida e cruel,a humana necessidade lhe ensina a ter crueldade, monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,tenho menos liberdade?
Nasce o peixe, e não respira, aborto de ovas e lamas,e apenas baixel de escamas por sobre as ondas se mira, quando a toda a parte gira, num medir da imensidade co'a tanta capacidade que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio, tenho menos liberdade?
Nasce o arroio, uma cobra que entre as flores se desata, e apenas, serpe de prata, por entre as flores se desdobra, já, cantor, celebra a obra da natura em piedade que lhe dá a majestade do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,tenho menos liberdade?
Em chegando a esta paixão um vulcão, um Etna feito,quisera arrancar do peito pedaços do coração.Que lei, justiça, ou razão,nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,exceção tão principal,que Deus a deu a um
cristal,ao peixe, à fera, e a uma ave?"

MONÓLOGO DE SEGISMUNDO (LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I)
de Pedro Calderón de la Barca

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

____passou pela minha cabeça



...estou devendo a mim mesma uma chuva de letras...

estou precisando das palavras vindo em meio a trovoadas sobre meu teto

tudo parece silêncio

tudo parece estio...

A

_________________imagem:A

terça-feira, 10 de novembro de 2009

_________preguiça



Penso nos dias modorrentos de um janeiro qualquer.

A preguiça toma conta de tudo e até minha poesia deita à sombra de uma frondosa mangueira.

Em suspenso, as flores de minha vida ficam presas no varal, a secar e a partir de tão secas para enfeitarem, depois, algumas páginas que deixei em branco.

Já não me importo se faz muito calor, se estou desmaiada em minha impossibilidade.

Sou um vasto bocejo como as tardes de janeiro.

E me abano de esperança por um vento sul...

A.

___________________________________________imagem: anita walters

domingo, 1 de novembro de 2009

_______amiga poesia


Tenho escrito poesia enquanto faço coisas, vivo a vida, vou seguindo.
Escrevo em meu pensamento, sem ter como agarrar o lápis e o papel.
Quase a perco, porque vai correndo pelo ar ou desce pelo ralo da pia enquanto lavo a louça.
A poesia.
Irritante senhora de quase cinquenta que não se aposenta de mim.
Uma coleção incansável de meus gritos guardados nas gavetas da cômoda do tempo.
Risível companheira desde os tempos de normalista.
-antes...tão antes disso!-
.
.
.
O que diria a colegial impaciente
e rebelde, agora que saio correndo
à procura de mim,
a quem só consigo definir
escrevendo poesia?
.
.
.
Sorriria, bonita e comportada.
Imaginaria que recatos ainda caberiam
na ruga em torno dos olhos
que ainda brilham de paixão.
[pela vida - inteira - em qualquer universo]
.
.
.
Poesia.
Aconchegante ponto final de mim.
A.
_______________________________imagem : thai

domingo, 11 de outubro de 2009

___um susto

Escrevo sobre vertigens
e continuo escolhendo
o céu para me deleitar
em vento
_______________
tonta e célere,
alcanço
o manto bordado, lá em cima,
de amor
A.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dançar a vida. [uma poesia inacabada]
Passos gentis ao som da melodia infinita.
Dançar. A vida.
Cuidar. De mim.
A.
____________imagem: rui calçada

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

____flores que são




Escreva até se cansar fotografando flores.

Elas estão a esmo, centradas naquilo que mais sabem fazer: ser belas, perfeitas,aromáticas, simples e principescas ao mesmo tempo.

Quanta sabedoria encerram ali, no curto espaço de tempo em que se perdem e se encontram na solidão humana: os que as degustam, desesperados pela beleza, jamais poderão alcançar um tanto que seja de sua majestade única.

.

Escreva, até se cansar. E fotografe as flores da rua, da serra, do mato, dos jardins esquecidos das casas dormidas.

Acompanhe os caminhos floridos e escolha as mais puras: simples, quase virginais. São as da vida que escolhi para mim.

.


A

____________imagem: rosa f.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

____momento metáfora [e quem entende?]

Hora esquisita e lampejos de sonhos que são como vagalumes em minha mente.[coração?]
Parece que ali adiante,à espreita, existe uma mensagem dentro de um jarro antigo, cerâmica de cor viva, ainda. A impressão vem e vai, como os piscas dos vagalumes que se perdem pela noite a fazerem coisas deles, vivendo a vida deles - curta e luminosa, curta e intensa.
Se a chuva voltar, eles se escondem aqui perto. Fazem como aqueles pássaros da madrugada que saltitam incomodando meio mundo com um canto lindo e tocante - chega a doer a beleza e o tom! Ninguém gosta muito deles por aqui - reclamam que são acordados pelos malcriados. Ah! Deixem que cantem, vá! Que mal pode haver em cantar? Será que preferem os gritos dos surfistas em cima do ônibus biarticulado madrugueiro que rasga a avenida?
Prefiro os pássaros madrugueiros.
Gosto deles e dos vagalumes que, a esta altura, já foram dormir ou viver em outro canto.
Bicho é tão puro e está mais perto de Deus que tanta gente...
.

Hora esquisita e a noite se prolonga absurda, com vontade de amanhecer mas preguiçosa demais pra tentar.
Eu desmancho alguns bordados e leio "A Dama e o Unicórnio" sem pressa de dormir.
O lampejo seguinte parece se curvar ali adiante. O que está à espreita, agora, é a poesia. Ao mesmo tempo, ela rescende a maresia. Então é isso...ela tem estado perto do mar...

.

Hora esquisita e o tempo passou.
Já é depois.
.

A.
_________________________

domingo, 30 de agosto de 2009

______eu me deito, caminho...



Algumas vezes a gente sente como se fosse o próprio caminho, em vez de o caminhar. Alternam-se as sensações, os sentimentos. Alternam-se os pensamentos e aquilo em que acreditamos. Não somos, em nossa alma, todos nós, linhas retas. Antes, temos formas tortuosas com as quais nos ocupamos sem sabermos para onde seguimos e é isso que nos faz ser quem somos. De que falo? Eu me repito aqui, como uma ave que volta toda primavera para o mesmo lugar buscando o aconchego para reconstruir seu ninho. Eu me repito e incansável que sou, refereindo-me ao que todos nós somos e sentimos e pensamos como seu conhececesse a fundo a alma humana. Não é verdade. Nada sei. Nada conheço além do pequeno cômodo no qual resido, que ocupo lenta e onde dormito, coberta de calor - ora abafado, ora benfazejo. Entretanto, volto a repisar minhas tênues pedras, as que me fazem caminho, calçada em paralelepípdedos. A nada estou nivelada, como muitos, acredito, também não estão. Os pés alheios não me ferem. Apenas me fazer recordar da necessidade que sobre mim estejam para que eu aprenda e me deitar, mansamente, sobre a terra de que me fez a vida, o caos, a Lei, o amor, a magia suprema de dias antigos que se repetem, jamais em vão.

A.

_____________________imagem: gerard koehl

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

______mais um hiato

Onde estava a palavra, no instante seguinte, quando a vida se vestiu em sépia para fazer algum sentido? Ela pareceu perdida e ida com o vento que soprava forte e vinha de trás de alguma colina de esperança. Talvez tenha pairado por uma fração de segundo no ar.
Talvez tenha se sustentado ali até que uma gota da chuva primeira tenha caído, ligeiramente salgada, ainda, como a lembrança que trazia do mar.
Mas...não é certo...na verdade, não sei...e prossigo questionando, como questiono tudo ao meu redor, ainda que, calada, sinta uma saudade imensa de um tempo em que, menina, eu tinha as respostas exatas, precisas, contadas em frases cirúrgicas.
A.
______________________________

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

_____repensar




Sinto o mutante batismo que arde em minhas veias de poesia.

Mais tarde, quando eu me deitar, serei apenas silêncio e não será importante o manejar das palavras.
Repenso o dia que vivi da mesma forma como repensei e repisei caminhos que percorri e nos quais descansei sempre que uma sombra amiga me chamava.
Tivesse prosseguido, talvez evitasse encontros que me fizeram mal ou, quem sabe, chegasse a ver um rosto que procurei [procuro?] por tantos dias, em vão.
Trata-se de escolhas.Sempre.



A.

_________________________imagem: do blog 'a pensadora'

quinta-feira, 23 de julho de 2009

______verdade e meia

Às vezes tenho a sensação de que espero o tempo certo, em que algumas portas e janelas se abrirão para que passem por elas todos os dissabores colhidos pelos caminhos.
Não importa se foram poucos ou muitos - cada um tem a medida de si, o que carrega.
O fato é que não gosto da sensação de estar 'à espera' de coisa alguma - prefiro a atitude incômoda e a briga incessante.
Já estou me repetindo.
Porque escrevo seguidamente sobre isso, mas é minha verdade e preciso derramá-la quando já se acumula a ponto de não mais caber no jarro antigo que se faz minha alma por aqui.
Nas esquinas.
Solto linhas e balões se projetam para um céu de inverno insistente.
É a natureza e a minha acompanha a dos dias e do meu espaço.
Encontro aqui e ali alguns mosaicos que eu mesma fiz, um dia. Gosto de tocar neles e perceber que estive ali, sabe-se lá com que ânimo, com que sentimento, com que pensamento. É uma parte - em muitas partes - de mim.
E minhas passagens acabam, bem sei, escrevendo epitáfio tranquilo e súbito: serei, ainda, quando mais não for. Porque somos o que acreditamos.
E creio na vida estabelecida e perene.
De novo, já me repito por aqui... escrever é mesmo uma repetição insolente de sentires e pensares e buscares.
Uma roda - viva, gigante, trágica e cômica...- a girar insone pelo tempo que sublima o pouco e o torna maior e mais brilhante.
Por isso os epitáfios são tão tocantes.
A.

_________________________imagem : gerard koehl

terça-feira, 14 de julho de 2009

________andante


Ir e voltar para mim. Como as palavras de um poema que escrevi há anos. Mais que palavras, atitude: uma constante, em minha vida.
Andante sou.
Peregrina, vou.
Caseira, monja, ermitã, volto.
É meu pedaço de curiosa alquimia humana.
E a compreensão calma, serena,
de que o mosaico se constrói a cada dia.
E todos os dias.
Para sempre.
[este 'para sempre', ao contrário de muitos outros, acredito, existe]
A.
______________________imagem: martha albuquerque

quinta-feira, 2 de julho de 2009

___depois que você se foi

Hoje, pousei meu olhar sobre
uma imensa planície branca.
Foi assim que descobri como estava
me sentindo: sem o abraço
de colinas, montes ou montanhas
que me pudessem indicar
um limitar de sensações
...
E sei que até
passar esta lua,
será assim: sinto falta
do berço que me acolheu menina
e que sei estar
no princípio do esvanecer.
Inevitável esvanecer.
...
A.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

____olhar sobre mim[de fora para dentro]


Sigo, ainda, atônita, entre ruas obscuras e retalhos de dias que se esparramam
tão lentos quanto a chuva.
Sou um deslizar de gotas pela vidraça e ainda me pergunto algumas antigas questões que sempre me fascinaram.
Talvez, buscar seja mesmo o meu talento.
E...tudo pare por aí.
_____
A.

____________imagem: olho de agla, pela própria

terça-feira, 16 de junho de 2009

____o agora



Fico à procura de algumas sementes que joguei em terrenos baldios, dos quais não reconheço a plantação. É como se tudo se houvesse perdido, sido vão.

Colho o vento, ar vazio em minhas mãos vem me mostrar a fragilidade de tudo o que se move agora, nascido em mim tempos atrás.

À distância, torna-se pequena a estrela que me guiava.

Por agora, é breu.

E tento absorvê-lo, para que não o esqueça jamais.

A.

__________________________imagem: richard calmes

domingo, 31 de maio de 2009

_______um silêncio


...
e tudo me lembra
que há o caminho de voltar
...
e o tempo, intenso,
imenso,
denso,
nos
ensina
a viajar
...
A

_______________imagem : dias dos reis

quinta-feira, 21 de maio de 2009

____costurando


Eu tenho uma irmã-de-alma que usa, com muita sapiência e propriedade, a expressão "isso foi costurado [ou alinhavado] com capricho pelo Homem lá de cima".
E sempre me pego pensando nisso quando deparo com situações, circunstâncias
para as quais não se pode dar nenhuma explicação 'lógica'
[se bem que, para mim, lógica é isso também e inclusive].
Navego pelos dias a perceber momentos, pessoas, gestos, atos, enfim acontecimentos assim, devidamente costurados pelo Grande Caprichoso,
o Condutor que nos dá aos caminhos e nos dá a possibilidade de caminhar.
Não me atrevo aqui a me aprofundar em questões religiosas ou mesmo filosóficas.
Sou pequena para isso.
Tudo o que vejo e sinto faz parte da visão e da intuição de uma mulher de meia-idade
que ainda não saiu de sua adolescência espiritual;
eu apenas evoco a beleza e a simplicidade da vida.
É o que faço quando escrevo.
Quando me dirijo aos peregrinos que, como eu,
preferem arriscar-se simplesmente à entrega de si em direção ao outro.
E esse é um gesto que pode ser perfeitamente comparado a um ponto, um alinhavo.
Assim, tudo o que realmente importa é seguir a linha, colocá-la com toda a paciência naquele buraco mínimo da agulha, usar um bom dedal
- porque [ah!] a gente vai se machucar...e como! -
e ensaiar os pontinhos...pequenos, tímidos que sejam, mas com o maior capricho possível.
Afinal...querendo ou não, formamos todos uma imensa e linda [por que não?] colcha de retalhos.
É preciso fazer valer.
Cada ponto.
Cada alinhavo.
É preciso.

.

A.

terça-feira, 5 de maio de 2009

____eu, solitude


Dias há em que tudo em torno é deserto branco e não me cabe questionar demais.
Acompanhar o silêncio é a solução mais sábia, creio eu.
Aliás, o silêncio é o que há de mais próximo da sabedoria.
O resto é o resto.
A solitude, no momento, me encanta.
A.
______________________imagem: Ewan Brown

terça-feira, 28 de abril de 2009

_________pra não dizer que não falei...



...
Um hiato para se falar [ainda!] do que se tem sabido a respeito dos políticos de nosso Congresso e das diversas "farras". Li muito sobre e destaquei para registrar aqui algo de que gostei bastante. Trata-se da explicação de ACM Neto sobre sua participação na "farra aérea" e de um comentário a meu ver bastante oportuno, de um colunista.
Lamento perder o meu e o seu tempo com fatos como esses, contudo não posso deixar passar em branco. Há que se ter presença e voz, por frágil que seja, diante do desmando e da falta de civilidade, competência, consideração[e por aí vai] que nos cerca a todos.
...
ACM Neto, tentando, ridiculamente, explicar-se : "Acho que a imprensa[que teima em noticiar tantas e consecutivas barbaridades] quer fechar o Congresso."
Colunista Tutty Vasques, do Estadão, em resposta: "Se não houver Congresso, acabam 90% das colunas de humor. Por uma razão simples:gente como ACM Neto só tem graça em Brasília. Fora de lá, tem baiano falando bobagens muito mais interessantes que ele".

...

Mordacidade precisamente empregada. O ACM Neto acredita que a imprensa quer fechar o Congresso. Quanto a mim, acho que a maioria de nossos políticos querem mesmo é fechar o Brasil!

...

A.
____________________________imagem: éóbvio.wordpress

sábado, 14 de março de 2009

____meu avesso

.
Sou mesmo o avesso do avesso.
Hoje escrevi sobre a noite e a metáfora me pareceu tão pronta e precisa...!
Gostaria de falar mais sobre dias coloridos, mas quando toma conta de mim a face oculta da Terra, saio da propensão natural que tenho para a alegria - uma inclinação praticamente hereditária..
E voo para o mais distante de mim. Vou para a noite comandada pelas hordas de minhas dores, cada uma delas mais poderosa que o enorme queijo desbotado a que chamamos Lua....
E... por aí, vai...

A.
___________________________imagem: do blog nattyffa

quarta-feira, 11 de março de 2009

_____texto sem nome, sem nada


.
As peças de um quebra-cabeça dançam em minha mente.
Espalham-se e unem-se vezes sem -conta... e se soprepõem a algumas marcas minhas
- as que eu defini que seriam minhas para sempre.
Mas, como diz o poeta, "sempre não é todo dia".
E, assim, as peças precisam que eu as reuna,
sempre que se entregam ao caos delicioso de seu brinquedo.
Quanto à parte incansável de mim - a que aposta no "sempre" - essa enxerga as cores do quebra-cabeça montado, pronto.
Nada além.
A.
__________________________________imagem : p.

domingo, 8 de março de 2009

_________mulher-flor




Em torno há uma escuridão só, mas a flor se abre luminosa e doa a sua luz com a generosidade de uma mulher.
Há uma expectativa nos olhos que vêem a flor se abrindo. O mundo parece temer as razões que levam tudo o que pertence ao mundo feminino a deleitar-se assim, ao prazer da vida...aguerrida forma de parir... de gerar através de um rebento...uma nova luz...uma nova flor...uma nova vida...
O mundo não compreende bem o que acontece. Apenas olha, contempla a mulher parindo e parindo a si mesma ela exalta o que é criado por toda a extensa, a vasta e completa obra...sempre mutante...
A mulher sente o latejar da terra. Ela sabe, como ninguém, sentir este latejar sereno e ao mesmo tempo forte, vigoroso, viril...
A mulher singra mares...conhece os fluidos todos...sabe deles e de suas mutações freqüentes... vive ensopada deles...vive a abundância deles...
O mundo olha perplexo para a mulher. Ela sorri. Até quando sente dor. Absorta na magia, mas concentrada no poder da Criação, expulsa de suas entranhas a vida em meio à dor...e sorri.
A mulher sangra. Sangra pelos poros, pelos órgãos, pela alma. A lágrima de uma mulher é sangue de sua alma. Nada é pequeno para ela. Tudo tem sentido, é intenso.
O mundo não compreende a mulher. Apenas a vê, entre divertido, preconceituoso, irônico...às vezes, até perverso...esconde a mulher de si mesma...como se pudesse fazê-lo... ela, dela mesma, não se esconde, pois é viva demais, é raiz demais a sua força...
Tirano, o mundo até pode mutilar a mulher...arrancar dela um pedaço de si que lhe pode conferir o delírio do prazer... entretanto ela sabe que o prazer reside nela e que apenas ela tem o néctar para seu homem...
A mulher, ainda assim, sorri. Tem a vida para viver. Tem um mundo para levar consigo...sobre os ombros, entre as mãos, em seu sexo, em sua alma...
...e se abre...feito flor...a cada nova chance de explodir feito luz...em meio à escuridão...
A.
[em outubro,2001]
_______________________________imagem: gary kuppling

terça-feira, 3 de março de 2009

______mãos cheias

...
Algumas vezes as páginas vêm prontas, inteiras. A poesia se impõe e chega primeiro às mãos, diretamente da alma. É como se transbordasse e nada pudesse impedi-la.
Então, estão ali as páginas. Completas, exigindo a leitura e o sentimento, o compartilhar.
Outras vezes, de uma palavra nasce uma linha, pequena, tênue e frágil, que vai num crescendo rumo ao infinito e ganha força e ganha brilho, arde como fogo logo adiante e se tranforma em páginas assim: sendo uma faísca simples e pura.
Enigmas, eu diria.
Como as bênçãos. Como os pequenos - grandes - milagres diários.
Grãos de areia ou aurora boreal, a poesia se faz de vida e sentimentos, mas também de pensamentos. Sim. Há também razão na poesia.
Ela, necessariamente, passa pela mente sensível e apaixonada dos que se conduzem
pela palavra
ao plantarem suas árvores frondosas de bem-querer.
Porque o poeta, mesmo quando decanta a dor e a ira, busca tão-somente o amor.
A.
_______________________________imagem: madeira click

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

______a diferença



...
Um dia a mais, um dia a menos, na verdade a gente acaba achando que tanto faz. Mas..."what a difference a day makes"!!!
...
Tempo que é mais do que correntes, mais do que prisão - quando é senhor e mestre de nosso destino, porque nos ensina e nos consola, tornando tão menor o que parecia imenso. Nesse contexto, vinte e quatro horas fazem, sim, uma diferença muito, muito grande.E é bom aprender mais isso, também, ainda que depois de quarenta e tantos anos, ainda que depois de lágrimas salgadas demais e de dores que pareceram insuportáveis [ se não fossem elas, aprenderia?].
Ao contrário do que ouvi um dia desses - que a sabedoria da maturidade é inútil, porque já totalmente fora das possibilidades de acerto - acredito que existe uma razão bastante forte e real para que se aprenda, em qualquer idade, até porque muitos há que não aprendem em idade alguma.
Um dia a mais é um dia a mais - e não a menos. Isto significa que envelhecemos mais horas, caminhamos sob o sol a pino mais uma vez, olhamos para rostos diferentes pela primeira vez ou para já conhecidos pela última, penúltima, antepenúltima..; respiramos não sei qauntas vezes mais...nasceu-nos algum sentimento, alguma ideia...morreu-nos um sonho, cresceu uma esperança nossa,perdemos outra...tantas coisas...! Enfim, nascemos um dia a mais para o infinito e morremos um pouco mais por aqui...
Faz diferença. Faz toda a diferença. Afinal, tempo também não se lança ao vento, assim como as palavras e os próprios pensamentos.

A.
__________________________imagem: fotostore

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

_______da gentileza

Sim, acredito na gentileza entre os seres.
E não apenas entre os seres humanos: acredito na gentileza entre todos os seres vivos [pelo menos, de nós para com os demais seres vivos]. Porque, na verdade, creio que tudo o que habita nosso pequeno e impulsivo universo vive - depende - de uma troca constante e mútua e somente por isso se mantém em um equilíbrio que parece correr um sério risco. Ou melhor, pluralizando: vários sérios riscos.
Por isso, levanto sempre - e há muito tempo - a bandeira da gentileza. É necessário que nos façamos gentis e delicados em nossos gestos, em nossas ações, em nossas palavras. É importante que tenhamos uma postura elegante em relação às pessoas e à natureza que nos cerca. Se o que nos rodeia e o que nos habita é energia, é importante que se possa mantê-la em alto nível.
Precisamos acreditar mais, muito mais, em ação e reação, em causa e efeito. Precisamos nos fixar no *fato* de que somos espelhos uns dos outros.
Quando eu era criança, ouvia muitas lições sobre comportamento e como ser gentil e educada com as pessoas. Não se vê muito isso por aí, hoje. Aliás, vê-se poucos pais *educando* seus filhos, porque educação, hoje em dia, perdeu seu sentido amplo, universal. Hoje, quando se fala em educação, remete-se logo o interlocutor [na maioria das vezes mais preocupado com seus próprios pensamentos e desejos consumistas do momento] à prática do *ensino*.
Então, acredito na necessidade de um resgate URGENTE dos bons hábitos e costumes. Da boa e velha educação na hora de tratar com os outros e com o meio ambiente.
E a gentileza é um dos pilares de uma possível nova construção de uma sociedade que está carente de tudo, tudo o que se relaciona com respeito e amor à própria vida.
É isso.

_________________
A.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

_______algumas noites

Acho que me perdi no tempo e dentro da noite que ficou mais fria. Foi como parar e nada mais sentir e nada mais ser além de uma batida de coração, triste como o som de um surdo...
Foi apenas um fio de pensamento - linear, persistiu noite adentro.
E esfriava...esfriava lá fora e a minha alma, aqui dentro.
Tudo tão vazio e tão repleto de silêncio que me fez aquietar por inteiro o corpo.
Às vezes, o medo é maior que a vontade de gritar e tudo o que nos resta é marejar os olhos que, estatelados, olham a noite fria...noite...fria.
Acho que me perdi de mim enquanto a noite esfriava e o sereno gelava minha ausência de sono.
E a única canção era mesmo feita a cada batida de meu tolo, inquieto e irrequieto coração.
A.

___________________imagem: Aglaé

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

______ponto alto



.

O ponto alto dos últimos dias foi a visita inteligente e sensível de *neo-orkuteiro*, que deixou um comentário bem-humorado e sincero e, além disso, prometeu vir sempre por aqui.

Sinto-me grata.

E abraço esse moço.

A.

____________________imagem: danny britton

_____mudanças

.
Um intervalo a ser preenchido. Necessariamente.
Foi essa sensação forte que me veio e me fez alterar o nome deste blog, que, apesar de pouco visitado, ao contrário do GO e do meu flog , é um canto meu [nosso] de que gosto muito, muito mesmo.
Aqui, por algum daqueles etéreos motivos - inexplicáveis ou até mesmo indizíveis, apenas - eu me sinto em casa, eu me sinto à vontade para escrever como se realmente estivesse num diário [jamais fui capaz de manter um ...].
É quando dou uma parada no mundo, desço e escrevo e escrevo, pronta para mudar o mundo, identificar fatos e gentes e lugares. Para criar e recriar caos e magias, numa alquimia maluca de aprendiz de viver.
Portanto, nasceu [[[hiato necessário]]] - ponto de parada obrigatória de minha alma, um intervalo que pretendo seguir preenchendo com minhas bobagens e sandices, com meus brinquedos de memnina, com minhas letras de mulher.
Quem vier, seja bem-vindo como sempre.
Em tempo 1: a imagem do título é minha .
Em tempo 2: o endereço de meu flog, onde derramo alguns poemas tontos banhados em músicas que amo é : http://www.flogao.com.br/aglasweet



_______________________________

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

______volta e meia



..

Cada passo vacilante me leva até mim mesma. Estou seguindo a uma direção que desconheço e o que vou encointrando - até mesmo meus próprios gestos - me intriga, muitas vezes. Ouço a minha voz e ela me parece a de uma garota de vinte anos, um pouco menos ou um pouco mais. Há um tom de rebeldia, uma revolta que me causa susto, às vezes, certo medo. Lá está ela novamente: a força imensa de uma fragiliadde nem um pouco menor.

Sigo. Não paro porque eu preciso manter um ritmo no qual me derrame constantemente. E, assim, possa me recompor a partir de minhas próprias mazelas.

Não vejo o meu rosto - já há algum tempo. Mas sinto o pulsar de meus pés contra o chão, na sequência de passos que persistem num sem-fim de dias e noites em que me pergunto entre um sorriso e uma lágrima: e agora, para onde?

A.

________________________________imagem: ret do blog de natalie santos

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

________livros lidos: Isabel Allende


Sou leitora assídua de Isabel Allende, na minha opinião uma das maiores escritoras da América Latina. Não costumo perder nem mesmo as adaptações de seus romances para o cinema - o que fazem na maioria das vezes com bastante competência e qualidade [ seria um verdadeiro pecado desperdiçar sua obra com a prodção de maus filmes ].
A Casa dos Espíritos é o primeiro romance de Isabel e eu, antes de ler o livro, assisti ao filme - uma produção inesquecível com atuações mais do que brilhantes de Meryl Streep e Jeremy Iron, sem falar na presença forte de Glen Close, que vivel a irmã de Esteban Trueba e grande amiga de Clara [esposa de Esteban, vivida por Meryl].
Foi por esse filme que me lancei à literatura apaixonante exercitada por Isabel Allende.
A saga da família Trueba fascinou-me e, no livro, ainda mais, dada à complexidade que as muitas páginas nos permitem visitar sempre com a alma presa e viajante, tão belo e forte o tom usado pela escritora em cada linha de sua narrativa. Viaja-se no tempo e no espaço e redescobre-se a América Latina tão rica pelo povo e tão empobrecida por ditadores. A visão sobre a questão latifundiária de nosso continente está ali esparramada de forma real e ao mesmo tempo, colorida pela fantasia viva de sentimentos seculares. Personagens ricos e inesquecíveis, a fuga do tempo essencial e o repensar de um mundo quando a mudança chega, inexorável.
Cinco estrelas? Mais. Talento e envolvimento não se pode mensurar.
São 448 páginas de vívida paixão e, ao mesmo tempo, lucidez histórica e social.
A.
___________________________

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

________página vazia



Procurar o que escrever. Procurar. E não encontrar. O vazio não faz sentido, porque me sinto repleta de coisas a dizer sobre uma infinidade de temas ou, até, uma bela poesia a escrever sobre...ah...sobre o amor, o desamor, talvez os dois...

Sei lá. Balbucio em pensamento e minhas palavras não se mostram desenhadas à minha frente como costuma acontecer. Dedilho o teclado feito um piano que escapa ao meu comando.

Hoje, no entanto, sou silêncio, mãos atônitas, página vazia.Tanto a dizer e nada me vem.

Lá fora, tarde vazia. tarde de vento frio e um mês de janeiro que nada tem de verão.Também o clima está perdido e confuso. Como eu.

Alguns nomes e personagens têm o poder de saltar de páginas escritas e às vezes eu me surpreendo com a força que exigem de mim sentimentos que me vêm com o vento. Então, costumo libertá-los sobre as linhas confusas em que vou desenhando as letras pulsantes como se tivessem veias e sangue a correr nelas.

É do que gosto. De emprestar a vida e derramá-la ao escrever, criando um mundo paralelo que me dá a sensação de estar sendo útil e construtiva. De me descobrir.

Quando me sinto árida assim, vazia, sinto-me exatamente como esses dias que o verão emprestou do outono: fora de época e de lugar.

....nada mais...nada menos....

____________________________A.

imagem: ret. da web [desconheço a autoria]

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

______ao mar



Há sempre uma maneira diferente, peculiar a cada um, de a gente se lançar. Quanto a mim, saí do cais há alguns milênios e nem sei mais por onde naveguei. Tudo o que sei é que vi terras e amei pessoas enquanto estive ancorada -por tempo demais, talvez -.

Ao mar me lancei, solitária e aflita, até que compreendesse que há um motivo para tudo...tudo.

Eu me lancei ao mar porque o mundo das águas é meu grande desafio, já que, por ser vento, teimo em não aprender a me deixar deslizar conforme gira o mundo...gira a vida...gira o sol.

_______________________________________________________A.

[a imagem foi ret da web e desconheço a autoria]

______reflexos


Quando a luz é pouca, a dor é mais aguda.
É preciso transigir.
É preciso transgredir de si
- de todas as falsas verdades repetidas e que acabam por nada ser -
.
A.
_________________________imagem: Rose K.