sábado, 14 de março de 2009

____meu avesso

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Sou mesmo o avesso do avesso.
Hoje escrevi sobre a noite e a metáfora me pareceu tão pronta e precisa...!
Gostaria de falar mais sobre dias coloridos, mas quando toma conta de mim a face oculta da Terra, saio da propensão natural que tenho para a alegria - uma inclinação praticamente hereditária..
E voo para o mais distante de mim. Vou para a noite comandada pelas hordas de minhas dores, cada uma delas mais poderosa que o enorme queijo desbotado a que chamamos Lua....
E... por aí, vai...

A.
___________________________imagem: do blog nattyffa

quarta-feira, 11 de março de 2009

_____texto sem nome, sem nada


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As peças de um quebra-cabeça dançam em minha mente.
Espalham-se e unem-se vezes sem -conta... e se soprepõem a algumas marcas minhas
- as que eu defini que seriam minhas para sempre.
Mas, como diz o poeta, "sempre não é todo dia".
E, assim, as peças precisam que eu as reuna,
sempre que se entregam ao caos delicioso de seu brinquedo.
Quanto à parte incansável de mim - a que aposta no "sempre" - essa enxerga as cores do quebra-cabeça montado, pronto.
Nada além.
A.
__________________________________imagem : p.

domingo, 8 de março de 2009

_________mulher-flor




Em torno há uma escuridão só, mas a flor se abre luminosa e doa a sua luz com a generosidade de uma mulher.
Há uma expectativa nos olhos que vêem a flor se abrindo. O mundo parece temer as razões que levam tudo o que pertence ao mundo feminino a deleitar-se assim, ao prazer da vida...aguerrida forma de parir... de gerar através de um rebento...uma nova luz...uma nova flor...uma nova vida...
O mundo não compreende bem o que acontece. Apenas olha, contempla a mulher parindo e parindo a si mesma ela exalta o que é criado por toda a extensa, a vasta e completa obra...sempre mutante...
A mulher sente o latejar da terra. Ela sabe, como ninguém, sentir este latejar sereno e ao mesmo tempo forte, vigoroso, viril...
A mulher singra mares...conhece os fluidos todos...sabe deles e de suas mutações freqüentes... vive ensopada deles...vive a abundância deles...
O mundo olha perplexo para a mulher. Ela sorri. Até quando sente dor. Absorta na magia, mas concentrada no poder da Criação, expulsa de suas entranhas a vida em meio à dor...e sorri.
A mulher sangra. Sangra pelos poros, pelos órgãos, pela alma. A lágrima de uma mulher é sangue de sua alma. Nada é pequeno para ela. Tudo tem sentido, é intenso.
O mundo não compreende a mulher. Apenas a vê, entre divertido, preconceituoso, irônico...às vezes, até perverso...esconde a mulher de si mesma...como se pudesse fazê-lo... ela, dela mesma, não se esconde, pois é viva demais, é raiz demais a sua força...
Tirano, o mundo até pode mutilar a mulher...arrancar dela um pedaço de si que lhe pode conferir o delírio do prazer... entretanto ela sabe que o prazer reside nela e que apenas ela tem o néctar para seu homem...
A mulher, ainda assim, sorri. Tem a vida para viver. Tem um mundo para levar consigo...sobre os ombros, entre as mãos, em seu sexo, em sua alma...
...e se abre...feito flor...a cada nova chance de explodir feito luz...em meio à escuridão...
A.
[em outubro,2001]
_______________________________imagem: gary kuppling

terça-feira, 3 de março de 2009

______mãos cheias

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Algumas vezes as páginas vêm prontas, inteiras. A poesia se impõe e chega primeiro às mãos, diretamente da alma. É como se transbordasse e nada pudesse impedi-la.
Então, estão ali as páginas. Completas, exigindo a leitura e o sentimento, o compartilhar.
Outras vezes, de uma palavra nasce uma linha, pequena, tênue e frágil, que vai num crescendo rumo ao infinito e ganha força e ganha brilho, arde como fogo logo adiante e se tranforma em páginas assim: sendo uma faísca simples e pura.
Enigmas, eu diria.
Como as bênçãos. Como os pequenos - grandes - milagres diários.
Grãos de areia ou aurora boreal, a poesia se faz de vida e sentimentos, mas também de pensamentos. Sim. Há também razão na poesia.
Ela, necessariamente, passa pela mente sensível e apaixonada dos que se conduzem
pela palavra
ao plantarem suas árvores frondosas de bem-querer.
Porque o poeta, mesmo quando decanta a dor e a ira, busca tão-somente o amor.
A.
_______________________________imagem: madeira click