quinta-feira, 9 de agosto de 2012

___alma






Ficou 

mergulhada - a alma - pelo tempo necessário

em essência sua, tão própria e difusa

que mal se cabia.

Ficou avisada de danos e de tantas perdas,

mas re*inventou as luzes que escolhera dos

céus que visitara.

Chorou só o pranto cabível - amortecido, quase erótico,

excitado pelo buscar prazeres

e se devolveu amável...aos braços da luz.



A.
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[imagem: ret da web e edit.]

quinta-feira, 28 de junho de 2012

_______de amar a vida







Então, minha conhecida me contou a longa
história sobre os destemidos grãos-de-bico a festejarem,
dentro da panela de pressão, seu cozimento
rápido e forçado.
Não. Não parece em nada interessante, contudo havia uma riqueza de detalhes contada de forma tão graciosa e simples que tamanha espontaneidade deu-me
a sugestão de lembrar a nós, por aqui, que 'fazer amor com a vida' é tudo isso, é fazer qualquer coisa com um prazer de encher os olhos de beleza ou a boca de água, o estômago de borboletas.
E cozinhar grão-de-bico inclusive, por que não?
Principalmente se disso a gente puder tirar uma boa história, uma animada conversa ali, na esquina, enquanto se paga uma conta ou outra coisa qualquer.
É. Fazer amor com a vida nos traz estelares orgasmos. Aquele gozo que somente
quem não tem medo de 'pôr a mão na massa' sabe - e pode - sentir.

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[imagem:tudopodedarcerto]

domingo, 22 de abril de 2012

_eu, domingo



Sempre achei os domingos difíceis, arrastados, lentos. Engraçado como a gente acaba se condicionando a uma ideia. Que besteira. Os domingos são dias como outros quaisquer. E mais um dia que a gente ganha para viver.
Mas essa coisa toda de condicionamento explica e expõe muito de nós - do quanto nos minimizamos enquanto pretendemos nos engrandecer.
Na verdade, somos tão pouco que acreditamos que um dia inteiro é menos que nós, que é menor que nossas vontades, nossos anseios.
Ah. Um domingo são as inteiras vinte e quatro horas a serem escritas, dirigidas e trabalhadas, depois de ganhas, quando um relógio autômato dá lá suas doze badaladas e já é madrugada, e já é novo dia.
Muita gente nasce e morre em um domingo - durante as vinte e quatro horas vive toda a sua vida aqui. Pelo menos aquela vida. Aquele trecho de um infinito caminhar.
Mas faz, de um dia, de vinte e quatro horas, tudo o que tem. E faz bem. Cumpre seu dia, sua vida, com a dignidade de quem aprende o bê-a-bá da vida - eterna sucessão de aulas.
Então, acabo de recuperar a alegria e meus domingos.
Resgatei a verdade de minhas manhãs preguiçosas e lindas - lindas apenas por serem manhãs, por ser domingo e por eu estar aqui.
E estar aqui, convenhamos, é uma bela oportunidade para, um dia, quem sabe, ser eu própria um domingo de luz.

quarta-feira, 14 de março de 2012

____amores moderno$





Alguns dias me pegam com um sabor amargo, bem aqui, na boca de minha alma.
E ainda há quem diga que sou doce.
Hoje é um desses dias. Dias em que não creio mais  nas coisas baratas que se compra na zona franca da vida moderna. O 'amor' [por onde andará ele] tem sido vendido e alvo de pechinchas risíveis. Mas para que me demorar pensando em amores que não são meus? Por que me preocupar se as pessoas pensam que estão realmente amando?
Vejo olhos vazios de amor. Os homens de quarenta e cinco, cinquenta, sessenta, setenta...fazem filhos nos ventres jovens e sarados de suas Lolitas como se estivessem carimbando um passaporte para a eternidade e querendo demonstrar sua extasiada virilidade em matérias pagas para revistas tão infantis quanto o ser humano urbano hoje é capaz de ser. Elas, dizem-se apaixonadas pela 'experiência' dos homens que conquistaram com duas jogadas de cabelo, dez sessões de bronzeamento depois e algumas  horas de academia. Como eles são mais maduros, estáveis, $$$$, $en$íveis...e como são bons na cama. Alguns até funcionam além da pílula azul.
Vidas estampadas em revistas ideais para consultórios médicos e dentários [alguém realmente lê aquelas matérias?].
Bom, eu avise...estou com aquele sabor amargo, hoje.
Vontade de ver amor nos olhos das pessoas. Há muito não vejo.
Tudo me parece tão negociável e descartável- tudo perfeito, bonito, estudado, milimetricamente dosado. Um festival de dentes branquíssimos e silicones e narizes perfeitos. Tanquinhos mais admirados através do espelho do que uma boa conversa com alguém interessante.
Vi um garoto fazendo isso. Vi dois. Vi três. O espelho era mais olhado que as meninas que passavam. Depois, saem para 'pegar mulher'. Já ouviram isso?
É.Mais ou menos como se estivessem penduradas no varal às portas, pelas ruas.
Então bebem. Bebem. E bebem mais um pouco. E 'pegam'. Quem mesmo? Nem viram!
E aquelas conversas boas que costumavam aproximar homens e mulheres?
Gente. Era muito bom!
Tudo está tão barato [ e ainda se pechincha mais!] que perde a graça.
E eu perco a graça por ficar aqui pensando nisso tudo com um saudosismo inútil de quem viveu grandes amores. Intensos. Enquanto duraram tiveram clima de parceria apaixonada, com direito a fazer amor sem fazer pose como se fosse fotografar para capa de revista. Fazer amor de suar. E rir depois. De alegria genuína por estar ali, ao lado de uma bela alma e um corpo danado de gostoso!
Ah.
Eu avisei. Hoje, nem eu me aguento!
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imagem: do blog modaeglamlour



segunda-feira, 5 de março de 2012

____há amanhã,sim




Fico 'de cara' com gente que age como se não houvesse amanhã. Não se iludam, irresponsáveis de plantão. Existe o amanhã, sim. Haverá contas a serem pagas, sim. 

Haverá o mal-estar causado pelas atitudes tomadas hoje, haverá o vazio, o oco, no local onde havia, antes, algo que foi usado até não mais poder. Haverá os cacos a serem varridos, de tudo o que se quebrou.
Ah. Não se iludam não. Essa coisa de 'viver intensamente' é poética e tudo mais, perfeita para quem é irresponsável o suficiente para tomar a ideia ao pé da letra. 
Mas muito pouco prática. Muito pouco.
Claro que é bom viver intensamente. Mas há que se ter responsabilidade, oras. 
Por isso, penso eu [ e penso mesmo!] se seus 'heróis morreram e overdose' também...você tem problemas e, se não os tem ainda, amanhã, o mais tardar, terá.
É isso.
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domingo, 19 de fevereiro de 2012

_momentos roubados [delícias da vida]





Então é isso. Estou em uma sala de cinema, prestes a assistir a um filme com Daniel Craig, um de meus atores favoritos, desta vez protagonizando uma adaptação para o cinema de um romance de suspense escrito por Stieg Larsson. 
Acontece que ainda estou sozinha na sala gigante. Não é para menos, pois hoje é uma segunda-feira, são quase treze horas e a maioria das pessoas ‘normais’ está almoçando ou trabalhando. Quanto a mim, gosto de me dar esses presentes – o que tem sido cada vez mais comum desde que me ‘aposentei’. 
De novo, escrevo. É o mesmo dia. Sim, ainda é a segunda-feira, 30, estou em outra sala de cinema para uma segunda sessão. Agora, vou assistir a J.Edgar [Hoover]. 
O primeiro filme foi ótimo e, quando ele terminou, ainda fiquei ouvindo um pouco da boa música [a trilha sonora é excelente]. Depois disso, fui ao banheiro, voltei para o café, garanti o meu, simples, com leite, sem creme, meio a meio, um salgado de queijo e entrei em outra sala, desta vez a 7. 
É isso. Um presente e tanto. Registrei o momento [ou ‘os’] porque fiquei pensando nas coisas que podemos dar a nós mesmos; no que podemos fazer mesmo a sós e garantir com isso uma sensação de bem-estar e satisfação. 
Assim como há pessoas que pensam que jamais poderão fazer qualquer coisa boa se não estiverem trabalhando mais de dez horas por dia e que não se sentirão satisfeitas com nada além disso, há aquelas pessoas que acreditam que precisam de muito, muito e muitas outras pessoas ao redor delas para que se sintam bem. 
Pois bem. Nem uma coisa, nem outra. Sei bem que cada um é cada um e respeitar a individualidade para mim é sagrado. Entretanto, há muitas [sim! muitas!] coisas que podemos fazer e, principalmente, ter para nos sentirmos melhor. Podemos nos dar bons momentos. Podemos enriquecer nosso interior. Podemos buscar conhecimento. Principalmente quando, finalmente, temos um parceiro adorável, um [finalmente!] aliado: o tempo. 
Sobra-nos um tanto a mais de horas por dia. Elas podem ser produtivas para um patrão maravilhoso que merece que seja feito o melhor dos trabalhos: nosso bem-estar. 
Isso tudo não significa estar parados, feito uns inúteis e imprestáveis, aquelas pessoas largadas e amargas que ninguém gosta de ter por perto. Não. Podemos ser sorridentes, podemos ser atuantes, fazermos valer a experiência que foi pescada em mares que navegamos, conquistada nesses oceanos de lutas e trabalho e doação. E fazer valer, primeiro para nós mesmos, cada momento roubado das horas em que, de repente percebemos, não precisamos estar em nenhum outro lugar que não seja aquele. Como o meu momento, nas salas de cinema, quando resolvo passar a tarde mergulhada em algo que amo; como as tardes em que me demoro na Livraria, bebendo café com leite e vendo o que há de novo e batendo um papo com os livreiros; como sair com a câmera para fotografar as ruas da cidade, as pedras do caminho, os passarinhos urbanos. 
Como fazer natação e hidroginástica e deliciar-se com o bem que a água faz. 
Permitir-se continuar crescendo, desta vez aproveitando cada momento que parece roubado como se fora aula cabulada, mas que na verdade não é. E garantir que a nossa melhor companhia, esta pessoinha que habita em nós, esteja muito feliz. 
É isso. 
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Referências a dois filmes ótimos,por sinal: 

“Os homens que amavam as mulheres”, direção de David Fincher, baseado no primeiro volume da triologia Millennium, de Stieg Larsson. Um thriller que, como o livro, prende a atenção do princípio ao fim. O destaque é para a atuação de Rooney Mara, no papel da ‘garota com tatuagem de dragão’. E, claro, as imagens suecas. 
O outro filme, “J.Edgar”, direção de Clint Eastwood, com Leonardo DiCaprio no papel do idealizador e primeiro diretor do FBI, John Edgar Hoover. É uma biografia muito bem trabalhada, com uma excelente atuação do elenco e uma direção primorosa. 

Vale a pena assistir aos dois. Façam isso e depois, me digam! 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

__copo meio cheio

Eu bebo do copo meio cheio e relato minhas horas em folhas de papel que vão se acumulando como pedaços de mim. Escrevo a lápis. Não porque pretenda apagar as palavras, mas porque, agora, voltei às origens de meus escritos e de minha caligrafia. O lápis desliza e vai tecendo de maneira mais fluente cada palavra, cada frase. 

Eu bebo do copo meio cheio. E recebo dos dias um tanto de brisa, um tanto de chuva e o pó que se acumula sobre os móveis antigos, mas que antes de assentar sobre eles fez pequenas luzes coloridas pelo ar enquanto eu observava, encantada, sua dança.
Assim minha quietude se abraça e se deita bocejando mais letras.
Bebo do copo meio cheio. Porque prefiro assim.
E para quem prefere beber do copo meio vazio entrego a caixa repleta dos benefícios da amargura. Se é que ela tem algum. 
__________.

É isso.
Sou isto.
Assim.

______________imagem: do blog 'para onde gira o mundo'

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ela, Elis






         Eu me lembro de  onde estava em 19 de janeiro de 1982. Eu havia marcado uma visita a uma fábrica de refrigerantes que ficava próxima à casa onde minha irmã morava, desde que se casara, um ano antes. Foi o que fiz pela manhã e, depois, fui almoçar na casa dela, com minha mãe. Estávamos as três, sentadas, conversando, e o rádio estava ligado, como sempre deixávamos. Um costume que perdemos, talvez porque a maioria das rádios já não toque as músicas que amamos.
         De repente, silenciamos. Ouvimos, entre uma palavra e outra que dizíamos, a notícia da morte de Elis Regina.
         Foi um silêncio de espanto. Pesado, furioso.
         Eu me lembro muito bem da sensação.
         Elis havia sido, ao longo de toda uma geração que gente como ela ‘puxava’ para seguir em frente, uma das maiores, se não a maior, revelação da música popular brasileira.
         A princípio, era apenas a moça de gestos abruptos e exagerados, como exagerado era o seu penteado quando começou a cantar depois que chegou ao Rio de Janeiro, em 1964, justamente no dia do Golpe de Estado que deu início aos tantos anos de ditadura no Brasil, dona de uma voz que não conhecia limites.
         Aos poucos, foi crescendo em desempenho para, na balança da sensibilidade, equiparar-se a sua enorme voz. A interpretação de Elis, em qualquer canção, passou a ser uma espécie de sonho de qualquer compositor que desejasse ver sua música tomar forma, ganhar corpo e sustentar-se a partir de um cantor e tornar-se alma.
         Sim, porque Elis não cantava, simplesmente. Nem mesmo interpretava, simplesmente. Elis sangrava.
         Ela tomava a canção para si e a injetava em suas veias até que chegasse ao mais íntimo de sua alma. Ela vivia cada nota, cada letra de cada palavra. E soprava tudo como um pássaro ferido, que dá seu último tom, o mais belo, antes de definhar e deitar-se sobre a esperança de ser, de novo, liberdade.
         Elis acabou sendo, desde que no Rio, portanto mais próxima de tudo o que fervilhava à beira do abismo da Ditadura, a voz que entoava os hinos de um Brasil que saiu da Bossa Nova para entrar nas canções que discursavam pela liberdade de expressão, em um Rio de Janeiro que era, então, um palanque só.
         Assim, ela trouxe à tona, a música de gente até aquele momento desconhecida da mesma forma que enfatizou como ninguém a obra dos já consagrados.
         Olhos pequenos, como todo o seu corpo, aliás, sorrisos de gengivas enormes, alma de água e vento, Elis foi mais que um furacão. Elis foi tsunami, quando o termo não era tão usado como hoje é. Ao mesmo tempo, foi a doçura que fazia valer a pena toda canção.
         E então, um belo dia, ela se foi. Voltou. É...voltou para um lugar onde se canta e se ri e se ama com mais naturalidade do que a que ela encontrou por aqui.
         E toda a música que pôde pegar, levou consigo, em seu peito de mil sons.
         Naquele dia, naquele exato dia, 19 de janeiro de 1982, a nossa música começou a ficar mais pobre.
         Porque ela, Elis, é um desses pássaros raros, de asas douradas que brilham quando refletem o sol. Ou as estrelas.
         E me ocorre, agora, uma frase de João Bosco,  da canção dele e de Aldir Blanc, que a voz da gaúcha tornou famosa: “...a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar...”
         Trinta anos depois, ela, Elis, ainda canta, forte e em bom tom, por este Brasil velho, sem porteiras, mas que hoje vive sob uma ditadura diferente, para a qual podemos dar muitos nomes. Escolhamos um.

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Referência: à música “O Bêbado e a Equilibrista” [João Bosco e Aldir Blanc]