domingo, 27 de dezembro de 2015

_____escrevo, escrevo, escrevo

[imagem: via ruffledblog.com]



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Provavelmente eu ainda esteja escrevendo quando o sol aparecer sobre o horizonte e soprar luz sobre nosso mar verde tão escuro que é quase sempre cinzento. Porque a noite me ameaça com desejos invencíveis de transpor meus  limites que cantam madrugadas e acordam ainda sonhadores. E eu escrevo como se sangrasse uma eterna menarca.
É quase certo que a lua me encontrará escrevendo quando ela surgir, majestosa, depois de dar um belo chute no sol para avisar que à noite é ela quem manda porque as estrelas lhe emprestam o brilho e um par de brincos novos, todas as noites. E eu escrevo como se bebesse o leite de minha mãe todas as manhãs antes de me dar conta de que ela passou a obrigação de me alimentar à poesia.
Também estarei escrevendo quando o relógio de sol marcar a hora metade e o calor estiver tão abrasador que eu desejarei o deserto de palavras, em vão. Elas serão tempestade de areia a fustigar meus olhos e secarem meus lábios. E eu escrevo como se me banhasse à tarde toda no oásis de águas claras da vida irmã.
Tenho quase certeza de que estarei escrevendo quando algum médico me garantir pouco tempo à mercê desta atmosfera e eu, entre um espanto e um suspiro aliviado, possa me garantir menos enfadonha do que as letras que rabiscam receitas e prognósticos e diagnósticos. E eu escrevo como quem se cura de uma doença a cada dia.
Creio que partirei escrevendo, para desespero dos amigos que vão preferir chorar antes de me ler. Provavelmente acenarei letras com um lenço branco e uma mensagem coerente em meio a mistérios incongruentes.
E meus olhos fechados estarão lendo tudo o que escrevi e escreverei ainda, como se assistisse a morosos veleiros transpondo mares azuis.

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A.Gil.

2 comentários:

João Esteves disse...

Muita beleza textual é o que torno a achar aqui, Aglaé, como em "...antes de me dar conta de que ela passou a obrigação de me alimentar à poesia". Dá gosto te ler

Aglaé Gil disse...

Ah! que bom que veio dar um beijo de olhar por aqui, amigo João* -sempre grata - sua opinião me é cara