sábado, 16 de novembro de 2013

____das metáforas dos dias

 
 
 
[imagem: Anna Alexis]


 Algumas palavras que lhe arranhavam as gavetas da alma, já não disse. Não faziam mais qualquer sentido. Sua boca parecia costurada com linha colorida como a boca das bonecas de pano e seu silêncio tinha um gosto de pão amanhecido e cheiro de café esfriado na caneca.
Entretanto, isso tudo era preferível a usar as palavras guardadas desde um tempo tão remoto que até a memória dele tinha tons sépia. Não que tivesse alternativa, já que os ouvidos estavam mais moucos do que nunca e as mentes tão rasas que repetiam atitudes burras travestidas de razão. Não que ela própria fosse genial.
Mas bem que sabia sair de labirintos maiores,
quando os reconhecia construídos por mãos de papelão e transístores.
Algumas palavras jamais diria.
E o bolor que elas criariam talvez fosse útil nos porões onde, deitados,
os vinhos esperam bocas e festins.

...



 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

____estatística/vida

imagem: via minhocanacabeca.com.br


Pelas telas das tevês escorrem lágrimas de sangue. 
Nos jornais, a tinta é vermelha e os números - inimagináveis- transformam crimes brutais e pessoas em mera estatística.
E eu - um milhão de 'eus' - passo - passamos nós - . Os que preferem ser essa individualidade para a posse, o consumo, mas se distancia - sem rosto, sem alma - dos que, como ele, compõem números...números.
O pensar matemático nos trouxe o imediatismo, o resultado exato e nos transformou - a nós e nossos pensamentos - em equações. E eis que a nossa capacidade de simplesmente nos colocarmos no lugar do outro - próximo ou distante - foi reduzida a mínimos comentários saídos da lingua de fogo da LÓGICA.  
Assim, rotula-se antes mesmo de pesar uma ciscunstãncia, uma causa, um sentir. 
O resultado - reação precisa ser rápido, tão célere quanto a fúria do pensamento que se habitua aos poucos a não admitir falhas - como se a vida fosse exata. 
A partir disso, da equilibrada e retilínea operação matemática tão proeminente hoje, qualquer fraqueza torna-se um defeito, uma falha imperdoável, pois é como se o mundo não tivesse espaço para nada que seja menos que perfeito dentro do padrões construídos matematicamente, minuciosamente.
O que não estiver "dentro" desse sistema de coisas é equacionado como um item marginal. É fraco, está abaixo das expectativas criadas com milimétricas  projeções.
No mundo dos "super" não cabe quem se importa, quem se relaciona com abertura de alma, tolerância e boa vontade.Ora, se 1.000 foram mortos em um atentato, por exemplo [ e portanto em consequência de muita intolerância sob qualquer aspecto], são 1.000 PESSOAS e não um número isolado, um dado na estatística comum.  
São mil vidas, mil amigos de outros, mil filhos de alguém.
E nós, muitos de nós, passamos. 
Retos, distraídos no minuto seguinte pelo próprio e importante mundo que nos torna aparentemente "normais".
Passamos. Corremos para garantirmos a nossa posição no "ranking"  dos dados estatísticos  em que se encaixam aqueles que, POR ENQUANTO enquanto, estão livres do mal.
 ...

* Em tempo:

Quando nossa sensibilidade é roubada pela LÓGICA fabricada de antemão por um sistema que nos pretende "ensinar"a viver, abrimos espaço para o domínio, a tirania, o controle desmedido do nosso destino. [Nosso e dos que, neste mundo, são considerados "diferentes"].


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

____nós, hoje

[imagem: jessica durnt]

...
A gente saliva um pouco, engole e segue adiante.
Somos emudecidos por tantas carrancas deste tempo - o nosso, arrastado tempo em que se explode 
por um piscar de olho mais ousado.
E a gente se controla enquanto pode - porque
pode ser que o outro nem possa mais.
O susto das notícias é algo que mora em casa, abre
a geladeira e lancha ao nosso lado, numa bancada
usada como mesa, porque mal se tem tempo para
comer ressoando  histórias em família.
O ponto é este: afastamento.
Nós nos afastamos - e começamos a fazer isso
em casa.
Nós nos perdemos uns dos outros.
Já não sabemos [ou sabemos muito pouco]
onde moramos e do que gostamos.
Uma tevê conversa conosco - monólogo do absurdo
e ansiedade subliminar.
Ela ocupa o lugar da mãe, do pai, do filho, do marido, da mulher e do olhar carinhoso que seria tempo de dar
sobre nós mesmos.
Somos o risivel submundo do que criamos.
E se já foi necessário acordar aguma vez,
agora é a hora de fazê-lo
mais do que sempre.
...
A gente saliva e sente falta do beijo
não dado.
Sorri de lado e se expõe ao hoje ridículo
hábito de estar alegre e de bem com a vida.
...
 
 
Aglaé.
 
 


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

____de manhã













Tenho a mania serena
de me encontrar
comigo, todas a manhãs,
e bater um papo
enquanto sorvo um café com leite
e me alimento de pão com margarina,
um pedaço de queijo...um biscoito,
um pedaço de bolo,
goiabada ou bananada caseira,
ou mel...

Enquanto como,
eu me alimento de mim,
porque me penso
e me descubro
no nascer de um dia
e de um página
que, na certa, escreverei
com meus rabiscos
nervosos, com minhas
frases febris.

Mas aquele momento
é o meu momento
de serenidade.

E sobre a mesa,
exposta e deliciosa,
minha vida
entra pela minha boca
e faz cócegas,
como o morango
vermelho de ansiedade
e, quem sabe, paixão.

Aglaé Gil

____________________________[imagem: welcomeapril.wordpress]