domingo, 8 de março de 2009

_________mulher-flor




Em torno há uma escuridão só, mas a flor se abre luminosa e doa a sua luz com a generosidade de uma mulher.
Há uma expectativa nos olhos que vêem a flor se abrindo. O mundo parece temer as razões que levam tudo o que pertence ao mundo feminino a deleitar-se assim, ao prazer da vida...aguerrida forma de parir... de gerar através de um rebento...uma nova luz...uma nova flor...uma nova vida...
O mundo não compreende bem o que acontece. Apenas olha, contempla a mulher parindo e parindo a si mesma ela exalta o que é criado por toda a extensa, a vasta e completa obra...sempre mutante...
A mulher sente o latejar da terra. Ela sabe, como ninguém, sentir este latejar sereno e ao mesmo tempo forte, vigoroso, viril...
A mulher singra mares...conhece os fluidos todos...sabe deles e de suas mutações freqüentes... vive ensopada deles...vive a abundância deles...
O mundo olha perplexo para a mulher. Ela sorri. Até quando sente dor. Absorta na magia, mas concentrada no poder da Criação, expulsa de suas entranhas a vida em meio à dor...e sorri.
A mulher sangra. Sangra pelos poros, pelos órgãos, pela alma. A lágrima de uma mulher é sangue de sua alma. Nada é pequeno para ela. Tudo tem sentido, é intenso.
O mundo não compreende a mulher. Apenas a vê, entre divertido, preconceituoso, irônico...às vezes, até perverso...esconde a mulher de si mesma...como se pudesse fazê-lo... ela, dela mesma, não se esconde, pois é viva demais, é raiz demais a sua força...
Tirano, o mundo até pode mutilar a mulher...arrancar dela um pedaço de si que lhe pode conferir o delírio do prazer... entretanto ela sabe que o prazer reside nela e que apenas ela tem o néctar para seu homem...
A mulher, ainda assim, sorri. Tem a vida para viver. Tem um mundo para levar consigo...sobre os ombros, entre as mãos, em seu sexo, em sua alma...
...e se abre...feito flor...a cada nova chance de explodir feito luz...em meio à escuridão...
A.
[em outubro,2001]
_______________________________imagem: gary kuppling

2 comentários:

neo-orkuteiro disse...

Aglaé, em minha inevitavelmente viril leitura e compreensão, achei uma incrível descoberta nesse seu texto mulher-flor, que é todo ele da mais pura mulheridade.

O fato de ter autoria feminina pode até me conferir algum vago vislumbre de como teria sido sentido quando da produção, o que aliás não vai muito longe, nem dá.

Pra saber mesmo tem que ser mulher, e não só mulher, tem que ser você, a autora, única pessoa que experimentou-o no momento de criação, que suponho ter tudo que ver com um parto literal, do qual ignoro se você teve a experiência.

Para mim, foi muito prazeroso tê-lo degustado a cada passo, em toda a sua desnsidade, profundidade e antes de mais nada em todo o seu seu intenso sentir.

Fabio disse...

Agradeço o comentário e a visita no blog FABIOTV. Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net