sábado, 4 de setembro de 2010



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[trecho de 'lembranças da menina poesia', uma tentativa minha]
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Ele não tocava mais clarinete. De olhos arregalados e rosto encovado, tudo o que conseguia ver eram as notas musicais perdidas pelo ar, sem que pudesse recuperá-las. Pestanejavam em volta dele feito borboletas escurecidas, enquanto ele tentava abocanhá-las ou agarrá-las com as mãos. Em vão. A música não voltaria. Tudo o que conseguiria seria um zunido persistente em seus ouvidos, logo depois de outra - a última - dose de heroína. Enquanto isso,as notas musicai borboleteariam rumo à esquina oposta.
Quando Anna viu novamente o clarinete, ele jazia ao lado do músico que morrera 'ninguém', esquálido e de olhos arregalados, deitado sobre a grossa camada de poeira e parecendo assistir a alguma sinfonia, no teto manchado pela infiltração da chuva.
Ela pensou em guardar para si o instrumento; afinal, quem daria por falta dele?
Mas Anna apenas se deixou ficar ali,correndo os olhos do corpo do homem para o clarinete. Ambos gastos, apenas um deles ainda com vida.
Ficou ali uma eternidade [em seu íntimo] até ouvir o som de sirene que se aproximava.
A mulher, a velha descabelada e mal-humorada, a senhoria do homem do clarinete chamara a polícia, o corpo de bombeiros e, com eles, os repórteres que faziam plantão em frente das repartições policiais, sempre a espera de uma notícia-desgraça.
Anna desejou aquele instrumento como desejaria poucas coisas na vida, apesar disso, deixou-o ali, ao lado do dono, guardando em si a lembrança do som que o homem, um dia, soubera tirar dele.
Ao sair, pôde ouvir a velha resmungar que o clarinete poderia pagar um tanto do aluguel atrasado...pelo menos um tanto...
Anna sorriu, tristemente. Foi para casa, sentindo-se cem anos mais velha e mil vezes mais só.
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Um comentário:

ZildaeAntonio disse...

Oi, Aglaé
O seu hiato é mesmo necessário, um oásis nessa vida agitada e tão cheia de controvérsias.
Você nos mostra o belo!
Muito obrigada!
Um abraço e tudo de bom!