segunda-feira, 5 de setembro de 2011

__________um conto de Luís Santana






À Mesa



Dobrou a esquina e por pouco não foi atropelado pela turba que desabalada vinha em sentido contrário.

Comprimindo-se junto ao muro, teve a camisa lanhada pelos pontiagudos pontos do cimentado em chapisco; passaram como se ele não existisse. E ele, olhos arregalados, mãos espalmadas no paredão, viveu aqueles segundos de susto como se eternos fossem.



Não havia como ser exato na conta, mas por ele passaram vorazes bem mais que dez adultos seguidos por um número bem maior do que meia dúzia de crianças.

Os gritos não foram bem entendidos; sentiu-se confuso. Guerra, linchamento, revolução?

Parou para respirar, lembrou-se de um vulto que vira passar pela entrada do beco, antes da desenfreada turba e se esforçou para não crer nas suas próprias suspeitas. Mergulhou no que via ser de real, o mundo. Vendo-se mais uma vez confuso, entre a loucura e o pesadelo, entre a certeza e a vontade de não admitir.



Saíra de um jantar, evento farto, e por que não dizer de esbanjamento e excessos. Pratos de confusos nomes, frutas exóticas, sobremesas opulentas e tentadoras – se rendera a um pudim, três trufas e uma bomba gigantesca – vinho de valores absurdos, garrafas de scotch 24 anos. Verdadeiramente um mundo irreal para 90% de toda a população da cidade, onde a tiragem do jornal não superava 150 exemplares – havia se espantado com os motivos de tal ninharia editorial. Poucos moradores possuiam condições de pagar diariamente por um número do jornal e dentre esses, só 1/3 sabiam efetivamente ler.



Aqueles segundos assombraram-no. Decidiu partir na manhã seguinte. Foi difícil dormir alguns minutos por toda aquela noite. Sentiu-se mal. Uma incômoda depressão teimou em acompanhá-lo até quase ao amanhecer. A lembrança daquela turba que vorazmente perseguia sua presa, o incomodou profundamente.



Enquanto o velho táxi cruzava a praça da cidade, tentava evitar, relutante, reparar no semblante dos que se encostavam ali em seu redor. Reconhecia a vários como integrantes da turba da noite passada; todos refletindo grande tristeza. A tristeza característica dos que carregam a incerteza e a desesperança nos dias futuros.



Rodou em silêncio e lágrimas nos olhos os quilômetros necessários para chegar à estação onde tomaria o trem. Sentia-se envergonhado por não possuir respostas, que explicassem tanta desigualdade entre dois pratos da mesma balança. Homens, povos, vidas, realidades e verdades tão separadas e maldivididas.

Por vezes, gritante se torna, a dificuldade de nos distinguirmos entre homens e bichos ... pensou ele, entre soluços de seu silêncio.



Soubera pelo taxista, de que na noite passada eles haviam caçado e comido o único rato ainda vivo na cidade.

Um comentário:

João Esteves disse...

Seu personagem é homem, sabemos logo no início com o 'atropelado'. Homem chora, sim, ora se não, inclusive ao meditar sobre injustiça e desigualdade social nas circunstâncias dadas. É de chorar mesmo, Aglaé.