sexta-feira, 14 de novembro de 2008

_________a menina com poesia no olhar


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Muitas vezes já senti saudade da menina que fui .
Muitas vezes eu a procurei em vão como quem revira gavetas à procura de algo que não lembra de já ter dado a alguém . Um dia, tive mesmo a impressão de que ela havia passado pelas ruas de sempre e, alegre-triste como ela só, deixado um rastro de perfume e havia se transformado em saudade .
Ah! . .. muitas vezes pensei tê-la visto comprando pipocas do pipoqueiro que ficava lá, no Passeio Público, num domingo qualquer ; parecia estar sorrindo para mim enquanto corria para dar comida aos gansos . Afinal, ela jamais decidiu se sentia medo deles ou se os adorava . Talvez, as duas coisas .
Muitas vezes achei que não tornaria a vê-la, iluminada pelo sol ou pela lua, cantando as canções que ouvia no velho rádio de onde as notas saíam banhando a casa com um som de amor.
Vi algumas pessoas sentirem saudade, muita saudade, dela . Essas pessoas me perguntaram por onde andavam aqueles olhos que pareciam duas contas azuis (ou seriam verdes?) .
Dias desses, dei de cara com ela, ela mesma, a menina que eu fui! .
Estava ali... a distância de um toque, pendurada em meu pescoço, sorrindo e despenteando meu cabelo enquanto eu tentava arrumá-lo diante do espelho .
Agarrei suas mãozinhas quentes,queridas .
Ficamos a nos olhar assim, com um carinho imenso no olhar, sorrindo . . até que um vento travesso soprou mais forte, e meu diário, aberto sobre a escrivaninha, teve suas páginas mexidas, viradas agilmente .
Quando se foi o vento, a página que deixou de se mover continha uma citação de Isadora Duncan que eu escrevera anos atrás porque achara linda: “Você já foi ousada; não permita que a amansem” .
Quando olhei de novo para o espelho, a menina que eu fui não estava lá .
Bem, não exatamente . . apenas notei que em lugar dos meus olhos estavam as duas contas, belas e grandes, brilhantes e muito azuis ( ou serão verdes?) .

A.
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imagem: warren

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